a volta do cometa

É julho de 2061. Tudo é bem bonito aqui de cima. Eu venho pra refletir, geralmente. Dá aquela solidão incrível, inimaginável lá de baixo, mas eu gosto.

Muita gente ainda não veio pra cá. É minha quarta vez só, porque ainda é um pouco caro. Mas eu prefiro isso a comprar uma TV de Oled gigante, como muita gente. Tudo bem que eu já tenho a minha. Mas nunca vai ganhar dessa vista, de se sentir acima de tudo e longe de tudo. E pensar que eu me sentia livre quando sentia o vento no rosto. Aqui não sinto vento nenhum.

Daqui do espaço, a Terra parece uma coisa só. E tudo parece que não tem fronteiras, e quando se olha de longe os problemas cotidianos se tornam insignificantes. O que é longe parece perto. Onde é noite, dá pra ver as cidades com as luzes acesas. Onde é dia, dá pra perceber quais as áreas mais urbanizadas porque têm menos verde, o progresso se contrapunha à natureza nos séculos passados. Que bom que não mais.

Dar uma volta completa na terra em uma hora e meia faz a gente se sentir rápido e poderoso. Estou a uma velocidade de cruzeiro de milhares de quilômetros por hora, mas na verdade me sinto bem parado. Daqui de cima a gente entende que é tudo relativo.

Dessa vez eu vim pra ver o cometa, o planeta inteiro vai olhar pro céu daqui a pouco. Da última vez, ele passou quatro meses antes de eu nascer, no século passado.  A humanidade já o viu e registrou sua passagem mais de 30 vezes, mas só descobriram que era o mesmo cometa passando faz uns 5 séculos, por aí. O cara que descobriu que era o mesmo cometa, e que previu sua volta, e que deu nome a ele, morreu sem vê-lo.

Eu pensava que a cauda do cometa era o cabelo dele contra o vento, e que se formava sempre na direção contrária ao seu movimento. De certa forma é contra o vento, o vento solar, que nem sempre está na direção oposta. É difícil imaginar um cometa passeando com a cauda pra frente. Mas sabe como são os cometas, têm essa mania de liberdade, de fazer o que bem entendem. Ele conhece bem mais que os planetas. E anda em lugares que os outros não vão. Pensavam que ele não tinha rumo, mas a verdade é que sua órbita é só um pouco diferente. E ele volta.

Todo mundo espera pelo cometa, porque ele é raro. Damos mais valor pras coisas que sentimos saudades. No caso dele, nunca aparece mais de uma vez pra mesma geração, então não são saudades. Ele é um mito, porque todo mundo viu uma vez só, e você cresce ouvindo falar dele. Ele faz os pais falarem sobre ele pros filhos, e estes esperarem crescer ou ficarem velhos só pra esperá-lo passar. E ele passa. Às vezes mais brilhante que outras, mas ele sempre passa. Porque ninguém espera por algo que não tem certeza se vai passar.

E o cometa faz pensar que nossa vida é muito curta. Que o homem tem como referência de tempo sua própria existência. Ele, em 76 anos dá seu passeio pelo sistema solar inteiro, e você nunca foi nem pra Antártida. Ele passa lá bem perto do sol, e perde um pouquinho dele mesmo. Mas ele passa perto do sol. Não seria ele, se não passasse, viver é ir se desintegrando aos poucos.

Por isso eu vim vê-lo daqui de cima. Eu não tenho mais nenhum contato com o solo. Estou tão sozinho quanto um homem pode estar. Eu faço isso pra sentir falta lá de baixo. Lembro que sou humano e posso muita coisa, mas não posso ser cometa.

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